
Caminhava pela areia da praia. Avistava o mar tranqüilo, o céu azul, o cheiro do novo. Observou os pequenos castelos de areia enfileirados um do lado do outro.
Uma onda veio forte e levou o primeiro castelo. Construído durante quase seis anos.
Cada grão, uma ilusão. Companheirismo, mas somente de amizade. Doação, mas somente de um lado. Amor, mas amor amigo. Se do outro lado havia amor – amor? Talvez. Mas o mar havia levado o primeiro castelo. E ela, mesmo relutante, com medo, deixou a onda limpar tudo. Suspirou aliviada. Essa era a magia do mar. Novas ondas, muito mais fortes, intensas e verdadeiras viriam depois...
A segunda onda derrubou o segundo castelo. Quanto tempo levou? Entre idas e vidas, quase cinco anos. Relação construída da co-dependência, da ilusão, mais uma vez, de um companheirismo unilateral. Ela compreendeu que apenas ela se doara, apenas ela investira. Dera o melhor de si porque era sua característica, sua personalidade. Aprendera demais. Longo e árduo aprendizado, porém revestido de um egoísmo triste e destruidor.
Passou a se questionar: tudo tinha que ser realmente só dor? Era necessário levar uma vida de sobressaltos? Até quando e por que? O que tinha feito de tão grave que a levava a se punir todos os dias, com o coração aos pulos, a alma encarcerada e o espírito pedindo asas novas?
Até que a onda, avassaladora e redentora, destruiu o castelo da ilusão. E mais uma vez o alívio e a visão do mar se fizeram presentes, arrebatadores, libertadores. De coração limpo e feliz, ela aceitou o fim da segunda ilusão que havia permeado grande parte de sua vida.
Duas grandes ilusões que a acompanharam por anos a fio. Fizeram de seus dias cinzentos, mas não sem esperança. Apenas demorara a compreender que tudo poderia ser diferente.
Eis que vem a terceira e grande onda. Um verdadeiro tsunami em sua alma. A maior de todas as mentiras emocionais que contara para si durante pouco mais de três décadas que era o tempo de sua vida.
Como sobreviver a ela? Como seguir adiante depois de compreender que todos os sentimentos que cultivara, todas as histórias que costurara, todos os laços que criara cediam à força inigualável da onda da verdade?
A onda era implacável. O medo cedia lugar a um leve e dolorido vazio. Caminhava pelas ruas agora lembrando dos castelos de areia. O vento batia em seu rosto, de dia, depois à noite, ela carregando as coisas do escritório, indo para o trabalho ou voltando dele e pensando: como vou fazer seus meus castelos?
Mas o pensamento não era de saudade porque simplesmente não conseguia mais sentir saudade de algo que nunca havia existido verdadeiramente. Sentia vazio. Sentia como se tivesse perdido tempo. E havia mesmo. No entanto, aquele fora seu tempo de aprendizado e embora os sinais estivessem ali, pairando sobre ela, todos os dias de sua vida, não os captou ou preferiu não os enxergar. Estava ocupada demais se preocupando em cuidar dos outros.
Agora, porém, tinha que cuidar de si. Não haveria mais castelos. Não sentia mais o vazio, mas apenas pensava como seria a história que queria escrever. Queria que a história fosse real. Contivesse momentos de muita alegria, alegria intensa. Algumas doses de preocupação. Outras de tristeza. Sabia que todos esses sentimentos fariam parte da sua nova história porque assim é uma história real. Mas, acima de tudo, queria que sua história fosse real e com paz.
A paz que por toda uma vida não tivera, pois vivera da ilusão, da dor e dos sobressaltos. Agora, queria construir a paz, o amor, a verdade. Estava pronta.
Com algumas cicatrizes na alma, é claro. Ninguém sai ileso após derrubar tantos castelos dentro de si. Também ninguém sabe o que vai encontrar pela frente. Mas ela sabia o que tinha dentro de si: a esperança de dias melhores e mais verdadeiros.
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