
Nunca havia lido nada sobre este tema. Até que chegou às minhas mãos “Veronika decide morrer”, de Paulo Coelho. Com trechos autobiográficos e relatos de conversas com outros internos das fases em que viveu em um hospital psiquiátrico, o autor discorre brilhantemente, sem maiores pretensões e por isso mesmo de uma forma envolvente e clara, sobre os limites entre razão e loucura.
Sair dos padrões, extrapolar limites, ser quem você realmente é, expor seus pensamentos, buscar seus dons, suas vontades, amar intensamente, não se importar com que os outros dizem ou pensam, não ter necessidade de seguir padrões convencionais... tudo isso pode ser praticamente enquadrado dentro do universo da loucura.
Porque se você parar para pensar, quando pode realmente falar o que pensa sem ter medo de ferir o outro ou de ser mal interpretado? Mesmo quando o que você está fazendo é algo que vem do âmago do seu ser, você sente aquilo ou você acredita que expondo a realidade, o problema, pode conduzir a uma solução? Raramente você pode ser integralmente sincero. Ser integralmente sincero é uma loucura. Pois os “normais” filtram o que devem dizer.
Um trecho interessante do livro é a comparação da loucura com o transbordamento da água de um tanque. E a razão é justamente viver no tanque, cuidar das bordas. Mas por outro lado, se você nunca ultrapassa as bordas, vai acabar caindo na loucura. Um verdadeiro paradoxo, não?
Isso porque cada ser humano é único. E acredito piamente que tem pessoas que não conseguem viver no tanque da realidade, do mundo dito normal e por isso vivem extrapolando. Elas amam demais, choram demais, ou mesmo enxergam a si e aos outros demais, em uma espécie de lucidez assustadora pois o mundo e as pessoas não são tão cor de rosa assim.
Esse louco por excesso de lucidez se magoa por não poder falar o que pensa ipsis literis, por não poder demonstrar seu amor ou sua raiva integralmente, por precisar cumprir as burocracias da vida, por não acreditar que subir cada vez mais alto em uma profissão tem necessariamente a ver com perder todas as outras coisas boas que a vida pode lhe oferecer e que você tem que se sentir feliz por viver enjaulado!
Então esse louco se deprime, chora, ultrapassa o tanque com rios de lágrimas que de alguma forma têm que sair de dentro dele e dar vazão a tudo o que carrega dentro de si. Para não ser tachado de louco, para continuar sobrevivendo nessa terra de mais padrões e regras na qual quanto mais se trabalha, estuda, trabalha, estuda, trabalha, estuda, sobe de cargo, tem mais e mais emails, mais e mais responsabilidades e gente chamando por seu nome, esquecendo-se que você é, afinal de carne e osso; enfim, para continuar vivendo nesse contexto, não perder tudo o que construiu (e afinal o que construiu mesmo?) não desatar os delicados laços que sustentam suas relações e a vida de quem depende dele, então esse ser precisa seguir em frente, dentro do tanque e só extrapolar o tanque quando ninguém estiver vendo.
Meu TCC para o curso de jornalismo da Puc, em 2000 foi sobre Jornalismo e Literatura. Abordei autores que eram jornalistas, mas que sempre enveredavam pelo universo da ficção. E Carlos Heitor Cony me escreveu uma coisa que jamais me esqueci e que voltei a evocar hoje ao terminar de ler o livro de Coelho: o jornalista era um peixe de águas rasas, enquanto que o escritor era um peixe de águas profundas, tinha um oceano inteiro para mergulhar.
Isso significa que um vive na superficialidade, justamente, na faixa da realidade e da razão. Mas como alguns jornalistas (e alguns outros loucos) não conseguem ficar nadando nessa margem, então eles mergulham na ficção, criam realidades paralelas e muito mais profundas – transbordam o tanque. Criar outras realidades não é justamente loucura?!
Essa interpretação é minha, mas me parece razoável. Acho que por isso que Coelho decidiu escrever, para viver as outras realidades, outras vidas que só os livros – onde todo tipo de loucura é permitida – nos podem mostrar.
Ps: ontem fiz aniversário. Mais um ano de razão ou loucura?
3 pensamentos:
Oi... estou com saudades loucas! rs. Passando para dar aquele oi. bjs mil.
Comentário muito bem sintetizado sobre o assunto abordado, paranéns
Digo Parabéns!
Postar um comentário