
Sabe aqueles relacionamentos intempestivos, que acontecem na sua vida por algum motivo que na hora você não entende porquê, mas assim como chegou vai embora?
Ela abriu a janela do quarto, que dava para uma paisagem linda, um lago congelado pelo inverno, enquanto aquela pergunta martelava em sua mente.
Ouvia relatos de amigas que não conseguiam se desprender do passado. Os relacionamentos viviam as rodeando. Saiam com um, com outro, voltavam a sair com quem não vinham há anos ou mesmo com quem vinham sempre e já estavam com o status de amigo.
Permitiam que as esnobasse, humilhavam-se por algumas horas de carinho dissimulado ou mesmo sexo que se esvaziaria na manhã seguinte ou na mesma noite mesmo.
Naquela manhã, tomando o ar puro e gelado que vinha da janela, ela pensava em todos esses relatos. Se enrolou no cobertor, desceu para um chocolate quente e os pensamentos inundavam sua alma em uma tentativa de encontrar respostas.
Já fazia um tempo que não era conselheira sentimental de nenhuma amiga. Aliás, se dera conta de que sentia falta daquela amizade estilo colégio, na qual uma dorme na casa da outra e conta tudo, sem pudores dos detalhes, da vida e das relações. A amiga confidente ouve tudo, compreensiva, às vezes com alguma ponta de inveja, outras, fula da vida de ciúmes daquele que quer levar a amiga embora, ou fula da vida com aquele fulano que chega não sei sabe de onde, vai embora não se sabe porquê, mas claro, sempre passando por cima que nem um trator da amiga querida...
Pegou o chocolate quente, subiu de novo para o quarto. Era sábado de manhã e queria curtir uma preguiça. Ainda enrolada no cobertor, pensou naquela amiga, a Rita, que tinha um rol de amigos que sempre frequentava os mesmos lugares. Ela já tinha ficado com quase todos, mais de uma vez com cada um. Sabia que era por pura carência, mas fica pensando se não julgariam mal a amiga... A amiga que, como todas as mulheres do mundo, só estavam buscando um cobertor de orelha...
Fechou os olhos e riu da Rita! Puxa, que saudade tinha dela. Trabalharam no mesmo escritório, mas a Rita tinha arranjado outro trabalho e estavam há um tempinho sem se ver. Soube até que a Rita tinha machucado o pé, daquele jeito estabanado dela, mas que estava se recuperando. Que saudades da Rita!
Mais um gole de chocolate e mais uma lembrança. Dessa vez era da falante da Maria. Maria era engraçada. Adorava um futebol, tinha um sotaque peculiar, uma força de vontade férrea que a fez perder uns quilos e ficar ainda mais bonita.
Maria também era uma amiga de trabalho, mas que já morava no coração dela. Afinal, ela tinha, apesar de ainda não ser, um jeitão de mãe que quer acolher todo mundo. Dar conselhos, puxar a orelha... mas estava aprendendo que não poderia ser assim para sempre e que primeiro tinha que cuidar dela mesma! Mas, enfim... estava lembrando da Maria.
Maria há pouco tempo - e como no fundo era de se esperar - tinha terminado um relacionamento meio conturbado. Claro, tudo tinha começado com amor, mas a coisa tomou aquele rumo que ninguém sabe onde vai dar, só tem certeza que vai dar errado. Ninguém tinha coragem de dizer para a Maria que aquele cara não era para ela, era uma âncora no pé da pobre. Mesmo sem os conselhos das amigas, ela foi adiante e fim! Acabou tudo.
Tá certo que foi dormir com a culpa... Ah, essa culpa.
Como a culpa é companheira das mulheres não?? Dos homens eu não sei, nunca vi homem morrendo de culpa porque traiu a namorada. Pelo contrário, é capaz de fazer a namorada se sentir culpada porque deu motivo para ele trair!!!
Não era só a Maria que tinha culpa. Em mais um gole de chocolate, olhou para a canela de porcelana, viu o seu próprio reflexo e riu. Ela também convivera com a culpa por um tempo, digamos, dispensável de tão longo. Eta atraso de vida!!
Manteve um longo relacionamento com uma pessoa e nunca parou para pensar no que estava fazendo. Daí veio aquelas paixões repentinas que derrubam tudo e derrubou a casa de areia. Mas um vento mais forte também derrubou rapidinho as paredes daquela paixão que eram de palha. E ela se viu liberta. Dos relacionamentos doentis e da culpa.
Vira e mexe o passado tenta fazê-la se lembrar de como tudo aconteceu. E embora ela ainda esteja aprendendo como caminhar na fase "adulta" de sua vida, já sabe que tem coisas que não merecem mais ocupar seus pensamentos. E mesmo quando o passado não quer passar... ela tem o livre-arbítrio para mandá-lo embora.
Sorriu de novo, ergueu a caneca de chocolate quente em direção ao lago, ao vento, à vida que se abria e lhe sorria lá fora e fez um brinde. Um brinde às novas chances!
Sorriu de novo, ergueu a caneca de chocolate quente em direção ao lago, ao vento, à vida que se abria e lhe sorria lá fora e fez um brinde. Um brinde às novas chances!
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2 comentários:
Lu, eu já disse que eu te amo? =)
Lu, eu já disse que te amo também ? :)
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